O que acontece entre um rabisco e uma ilustração?
- 9 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 22 de ago.
Há uma coisa que quase ninguém vê quando olha para uma ilustração acabada: tudo o que aconteceu antes dela existir.
Porque não, eu não pego numa folha em branco, faço dois riscos mágicos e… tcharan!… aparece uma ilustração bonita. 😂
Quem me dera.

Na verdade, entre o primeiro rabisco e a ilustração final existe uma pequena viagem. E, às vezes, essa viagem é uma verdadeira montanha-russa.
Tudo começa com uma ideia
Às vezes tenho a imagem bastante clara na cabeça.
Outras vezes tenho apenas uma ideia meio vaga:
“Quero uma menina aqui…”
“E se houvesse uma árvore enorme?”
“Esta personagem podia estar a voar…”
“Falta qualquer coisa.”
E lá começo eu a desenhar.
O problema é que aquilo que funciona perfeitamente dentro da minha cabeça nem sempre funciona quando chega ao papel.
E começa a dança do:
desenha → olha → apaga → redesenha → olha outra vez → “hmmm…” → muda tudo.
Faz parte.
O primeiro desenho raramente é o desenho final
Os primeiros esboços são, provavelmente, a parte menos bonita de todo o processo.
E ainda bem.
São rabiscos, formas simples, linhas por cima de linhas e personagens que às vezes parecem ter acabado de acordar de uma sesta muito complicada.
Mas é aqui que estou a tentar descobrir coisas.
Onde fica cada personagem?
Para onde está a olhar?
Que expressão tem?
Como é que o corpo se posiciona?
Onde entra a luz?
O que precisa de estar na imagem para contar aquilo que quero contar?
É quase como montar um puzzle… só que algumas peças ainda nem sequer existem.
Depois vêm as cores
Quando o desenho começa finalmente a fazer sentido, chega uma das minhas partes favoritas: a cor.
E aqui entra a aguarela.
Água, tinta, papel… e um bocadinho de coragem. 😂
Porque a aguarela tem uma característica maravilhosa: nem sempre faz exatamente aquilo que nós queremos.
A tinta espalha-se.
A água cria manchas inesperadas.
Uma cor mistura-se com outra.
E, de repente, aparece qualquer coisa que não estava planeada.
Às vezes resulta lindamente.
Outras vezes… bem… fingimos que foi de propósito.
E depois vêm os pequenos detalhes
São aqueles pormenores que talvez nem se notem imediatamente, mas que fazem toda a diferença.
Uma expressão.
Um padrão numa roupa.
Uma pequena flor.
Uma janela iluminada.
Um animal escondido algures na imagem.
Uma sombra.
Um detalhe no cabelo.
Gosto de pensar que são estes pequenos elementos que fazem com que uma ilustração tenha uma história para contar.
E também gosto muito da ideia de que nem toda a gente vai reparar nas mesmas coisas.
Talvez uma criança repare primeiro na personagem.
Outra repare num passarinho escondido.
Outra fique fascinada por uma determinada cor.
E outra simplesmente pergunte:
“Mas porque é que aquela árvore está ali?”
E eu adoro isso.
Até chegar aquele momento…
Há sempre um momento em que paro de mexer.
Olho para a ilustração.
E penso:
“Acho que está.”

Porque há uma altura em que continuar a acrescentar coisas já não melhora a imagem.
Às vezes, pelo contrário, tira-lhe qualquer coisa.
Por isso também aprendi que saber quando parar faz parte do processo.
E então chega o momento de olhar para trás e perceber que aquela imagem começou… com um rabisco.
Uma linha que não era nada.
Depois tornou-se uma forma.
A forma tornou-se uma personagem.
A personagem ganhou um lugar.
O lugar ganhou cor.
E, de repente, existe uma pequena história diante de mim.
É isso que mais gosto de desenhar
Não é apenas o resultado final.
É todo o caminho até lá.
Os rabiscos tortos.
As ideias que não funcionam.
As mudanças de última hora.
As manchas inesperadas.
Os desenhos que vão parar ao lixo.
E aqueles momentos em que uma coisa que estava apenas na minha cabeça finalmente aparece no papel.
Por isso, quando vires uma ilustração da Senhorita Rabiscos, lembra-te:
antes daquela imagem existir, houve provavelmente muitos rabiscos.
E talvez seja precisamente essa a parte mais bonita.
Porque uma ilustração não nasce perfeita.
Vai-se descobrindo.
E é nessa descoberta que a magia acontece.




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